Do recorde de calor às enxurradas, extremos climáticos marcaram Mato Grosso do Sul em 2025

Em 2025, a crise climática esteve no centro do debate global, enquanto Mato Grosso do Sul enfrentava eventos climáticos extremos

Do recorde de calor às enxurradas, extremos climáticos marcaram Mato Grosso do Sul em 2025
Pantanal de Corumbá. (Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

Sob o calor intenso do inverno, temperaturas bateram recordes dia após dia, enquanto rios secavam e a vegetação virava cinzas. A chuva, que tanto demorou a cair, chegou de forma devastadora e, junto ao vento, deixou um rastro de destruição por Campo Grande e diversas outras cidades de Mato Grosso do Sul.

Em 2025, ano em que a crise climática esteve no centro do debate global durante a COP30, em Belém, Mato Grosso do Sul enfrentou eventos climáticos extremos que reforçaram a urgência de políticas eficazes de preservação ambiental.

MS 42°C

Desde o primeiro dia do ano, o calor já dava sinais de que 2025 não traria trégua. Em 17 de janeiro, Porto Murtinho, a 439 km de Campo Grande, registrou o que seria o pico de calor do ano, com termômetros marcando 42,1°C.

Geada e frio intenso marcaram o início do ano

O inverno começou rigoroso em Mato Grosso do Sul. No mês de maio, a temperatura chegou a 0,7°C em Rio Brilhante, com ocorrência de geada em várias localidades. Em três municípios da região sul do Estado, Amambai, Iguatemi e Maracaju, as temperaturas não passaram de 2°C.

Em junho, o frio atingiu também à região de fronteira com o Paraguai, provocando geadas que afetaram plantações de milho e geraram atrasos na safra. A geada consiste na formação de uma camada de cristais de gelo sobre as plantas e outras superfícies quando a temperatura fica abaixo de 4°C.

No dia 24 de junho, o Estado registrou um dos episódios mais gelados do ano. Campo Grande chegou a sensação térmica de -6,9°C, conforme o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia). A região sul concentrou as menores temperaturas: Sete Quedas marcou -0,8°C; Amambai, -0,1°C; Iguatemi registrou 0°C e; Caarapó, 0,5°C. Com mínima de 4,8°C, a Capital teve a menor sensação térmica do ano, superando o recorde anterior de 6,6°C, em 29 de maio.

Em agosto, Campo Grande foi a segunda capital mais gelada do Brasil, com 8,8°C, atrás apenas de Porto Alegre, que registrou 7,6°C.

Floradas dos ipês embelezam Campo Grande

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Ipês na Afonso Pena. (Helder Carvalho, Jornal Midiamax)

Assim como em todos os anos, a florada dos ipês embelezou Campo Grande. Entre maio e setembro, a Capital ganhou suas cores tradicionais com a sequência de floradas de ipês.

Em junho, o ipê-rosa abriu a temporada; em seguida, no mês de julho, foi a vez dos ipês-amarelos, árvore símbolo de Mato Grosso do Sul. Por fim, já em agosto, os ipês-brancos deram o ‘ar da graça’ na Capital.

Após população respirar fumaça, 2025 teve melhora na qualidade do ar

Nos primeiros seis meses de 2025, Campo Grande se manteve com a qualidade do ar em índices frequentemente abaixo de 40, estimativa considerada ‘boa’, conforme o Conselho Nacional do Meio Ambiente, que estabelece os padrões de qualidade do ar.

Em comparação ao mesmo período de 2024, entre o fim de junho e o início de julho, houve uma melhora significativa. No ano passado, os níveis eram frequentemente moderados ou ruins durante o período de estiagem. Além disso, em 2021, Campo Grande enfrentou o pior índice desde o início do monitoramento da estação, com 51 dias acima do nível indicado.

Somente nos quatro primeiros meses de 2025, choveu o equivalente à precipitação durante os 12 meses de 2024. Por conta disso, houve uma boa redução nas queimadas, principal fator que impacta a qualidade do ar.

Incêndio de 20 dias no Pantanal

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Fogo persiste na região de difícil acesso. (Divulgação, IHP)

Em setembro, o calor e a seca voltaram com força. Em um dos poucos dias de chuva, um raio deu origem a um incêndio que consumiu a Serra do Amolar, no Pantanal de Corumbá, por 20 dias.

Com acesso difícil, clima extremo, temperaturas elevadas, baixa umidade e ventos de mais de 60 km/h, o fogo avançava a cerca de 187 hectares por hora. De acordo com o monitoramento do IHP (Instituto Homem Pantaneiro), 30 mil hectares de ficaram destruídos.

Calor intenso deixou cidades de MS entre as mais quentes do país

Ainda em setembro, Mato Grosso do Sul registrou as maiores temperaturas do país. Porto Murtinho chegou a 41°C, seguida por Três Lagoas (41,3°C) e Bataguassu (40,7°C).

Em Campo Grande, termômetros chegaram a marcar 38,7°C, com sensação térmica ainda mais elevada. O calor extremo trouxe previsão de pancadas isoladas para amenizar as temperaturas.

No mês seguinte, outubro, Água Clara chegou a 41,7°C e figurou como a cidade mais quente do país naquele período. Embora o calor tenha sido intenso, a marca não superou o recorde registrado por Porto Murtinho em janeiro (42,1 °C).

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Semana de calor intenso. (Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

Queda histórica das áreas queimadas

Apesar do incêndio no Pantanal, o monitoramento oficial dos biomas apresentou a melhor redução de queimadas da série recente. Entre 1º de janeiro e 15 de setembro, o relatório do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul), em parceria com a Asbom, mostrou redução de:

  • 79,6% na área queimada do Cerrado;
  • 98% no Pantanal.

Assim, o Cerrado passou de 194.390 hectares queimados em 2024 para 39.620 hectares em 2025. Já o Pantanal registrou queda de 1.542.618 hectares para 30.198 hectares.

A queda também foi expressiva em áreas protegidas:

  • 96,2% nas unidades de conservação;
  • 95,7% em terras indígenas;
  • 99,8% na rede Amolar.

Redemoinho destelhou casas no Aero Rancho

Também em setembro, um redemoinho surpreendeu moradores no bairro Aero Rancho, em Campo Grande. Por volta das 16h do dia 26, telhas foram arrancadas e arremessadas no cruzamento das ruas Santa Quitéria e Filipinas, destelhando quatro casas.

Moradores relataram pânico durante o fenômeno, que ocorreu sob céu aberto — sem chuva ou nuvens. “As telhas voaram muito e depois caíram no asfalto, estralou tudo. Eu nunca vi uma coisa assim”, disse um idoso na época. Segundo ele, o redemoinho ficou parado, e as telhas foram jogadas para cima em espiral e, depois, despencaram no chão.

Ivinhema liderou acumulado de chuva no país

Chuva forte no município do sul do Estado. (Foto: Reprodução, Prefeitura de Ivinhema)

A instabilidade climática avançou em novembro, quando Ivinhema decretou estado de calamidade após forte período chuvoso entre os dias 5 e 17. O município registrou 71,2 mm, o maior acumulado de todo o país no intervalo, conforme o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

Enxurradas destruíram estradas, abriram crateras, comprometeram tubulações e interromperam acessos, principalmente nas Glebas Ouro Verde e Azul. Pontes fragilizadas por erosão foram danificadas e serviços emergenciais foram decretados para atender à população. O decreto estabeleceu uma série de medidas emergenciais para assistência à população e recuperação das áreas afetadas.

Campo Grande ‘debaixo d’água’

Família foi resgatada do veículo. (Fala Povo)

Ao longo do ano, os temporais provocaram alagamentos em Campo Grande, deixando ruas submersas, veículos arrastados e moradias atingidas. Em novembro, a Capital enfrentou três tempestades severas e registrou 113 milímetros de chuva em apenas 48 horas. Pelo menos 200 pontos críticos foram mapeados.

Um dos locais mais afetados foi a rotatória da Avenida Rachid Neder com a Avenida Ernesto Geisel. Em um dos episódios, mãe e filha precisaram de resgate após ficarem ilhadas em um veículo no meio da via.

Em bairros residenciais, vias como a Rua Tango, no Jardim Centenário, e a Rua Frutuoso Barbosa, no Jardim Seminário, ficaram intransitáveis. Moradores ficaram ilhados, casas foram invadidas pela água e ruas praticamente desapareceram sob as enxurradas. Além disso, houve registro de veículos ilhados, como um carro no cruzamento das avenidas Rachel de Queiroz e Thyrson de Almeida, no Aero Rancho.

Consequência das mudanças climáticas

Para o ambientalista Alcides Faria, diretor da ONG (Organização Não Governamental) Ecoa, os efeitos das mudanças climáticas já são evidentes em Mato Grosso do Sul. Ele afirma que praticamente todo o território do Estado está vulnerável. Isso porque houve uma redução da vegetação nativa do Cerrado e do Pantanal ao longo das últimas décadas. Com isso, desastres climáticos tendem a ser cada vez comuns em MS.

“Retirada a vegetação, as águas escoam mais rapidamente durante as chuvas, sem infiltrar no solo. Isso arrasta sedimentos e pode causar cheias repentinas. O Estado já vive eventos extremos com mais frequência, como as secas severas no Pantanal em 2020 e 2024”, destacou.

A variação climática global também altera a intensidade de fenômenos como El Niño e La Niña, tornando as chuvas mais irregulares. Conforme Alcides, pesquisas indicam que períodos de transição entre esses dois fenômenos podem reduzir drasticamente as chuvas na bacia do Rio Paraguai e afetar diretamente o Pantanal.

Ainda temos tempo?

Seca no Pantanal. (Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

Para reduzir os impactos, Alcides defende ações estruturadas, com fortalecimento das Defesas Civis municipais e planejamento urbano adaptado.

“Eu começaria pelas cidades. Arborização, drenagem adequada, cuidado com áreas de encosta e fundos de vale. No último temporal em Campo Grande, mais de 80 árvores caíram”, comentou.

Além disso, diante desse cenário, especialistas apontam que eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais frequentes e intensos no Estado. Por isso, Alcides reforça que o desafio para Mato Grosso do Sul é avançar na prevenção, adaptação urbana e recuperação de áreas degradadas, antes que novos desastres se repitam.

“Precisamos de planos específicos que contenham como ponto de partida a formação de um sistema de defesa civil forte, município a município, de acordo com características particulares de cada um deles”, defendeu.

 

Fonte: Midiamax