Você admira as ‘flores do Relógio’, mas sabe o que acontece debaixo delas?

Com mais de 4,4 mil quilômetros de rede de água e cerca de 3,5 mil quilômetros de tubulações de esgoto, Campo Grande conta com uma infraestrutura subterrânea que opera 24 horas por dia para garantir o abastecimento e o saneamento da população

Você admira as ‘flores do Relógio’, mas sabe o que acontece debaixo delas?
(Guilherme Ramos/Midiamax)

A pé, de carro ou até pela tortuosa ciclovia central de Campo Grande, o cenário salta aos olhos. No marco zero da cidade — cruzamento da Avenida Afonso Pena com a Rua 14 de Julho —, o monumento do Relógio divide espaço com um paisagismo que colore a região e dá vida ao coração da Capital.

Mas, por trás das flores e diferentes tonalidades que encantam quem passa pelo local, existe uma tecnologia que poucos enxergam: uma estrutura subterrânea de irrigação e saneamento, que funciona continuamente, 24 horas por dia. É a conexão entre o que a cidade revela na superfície e uma infraestrutura invisível, mas essencial para a vida urbana.

Desde a implantação do canteiro, há cerca de cinco anos, na antiga “Rua do Beco”, como era conhecida a 14 de Julho, o espaço ganhou exemplares de arbustos, plantas rasteiras e palmeiras, além de espécies como primavera, cravo, rabo-de-gato, moreias e cambará. A composição paisagística, conforme explicou a arquiteta e paisagista Ana Elisa Casagrande, exige cuidados e manutenção constantes.

Mas como toda essa vegetação é mantida? A pergunta, embora nem sempre verbalizada, desperta curiosidade em quem passa pelo local. Enquanto caminham pela região ou aguardam a abertura do semáforo, muitas pessoas imaginam como funciona a irrigação. “Eu achava que alguém vinha aqui e regava duas vezes ao dia” e “Sempre pensei que era só a água da chuva que abastecia aqui” são algumas das percepções ouvidas pela reportagem.

Para desvendar o que acontece sob a superfície, o Midiamax conversou com transeuntes e especialistas e foi atrás da tecnologia responsável por manter essa estrutura funcionando. Mas ela não está presente apenas naquele ponto turístico: por toda a cidade, enquanto muitos caminham, trabalham ou visitam espaços públicos, quilômetros de tubulações transportam água tratada e coletam esgoto. É uma infraestrutura que não aparece, mas influencia diretamente a saúde pública, a preservação ambiental e a qualidade de vida dos moradores.

Nesta analogia, fica claro entender que a irrigação dos jardins é apenas um exemplo de como a inovação pode estar presente em espaços que parecem simples. Sendo assim, o planejamento mantém a vegetação estonteante e é da mesma forma quando a água chega às torneiras das residências, percorrendo estruturas que dependem de monitoramento e operação contínuos.

Muito além de tubos

Quando se fala em saneamento básico, é comum pensar apenas nas tubulações instaladas nas ruas. Na prática, porém, o sistema envolve um arranjo complexo, que começa na captação da água, passa por tratamento, distribuição, coleta, transporte e tratamento do esgoto.

O saneamento também abrange a drenagem urbana e o manejo de resíduos sólidos, cuja atribuição é direta do poder público municipal, com base no Plano Diretor de Drenagem Urbana, e da concessionária CG Solurb Soluções Ambientais. Já a Águas Guariroba (Grupo Aegea) atua nos sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário.

Conforme apurado pelo Midiamax, a Capital conta atualmente com mais de 4,4 mil quilômetros de rede de água e aproximadamente 3,5 mil quilômetros de rede de esgoto. A dimensão dessa estrutura ajuda a entender por que o serviço exige planejamento e tecnologia.

“O saneamento não é só esgoto. É um conjunto de serviços que envolve água, esgoto, drenagem e resíduos sólidos. São quatro pilares importantes para o funcionamento das cidades. É muito mais do que simplesmente um tubo enterrado. Existe toda uma infraestrutura e tecnologia embarcada para que a gente consiga administrar esses sistemas”, inicia Clayton Bezerra, diretor executivo da Águas Guariroba.

Para isso, a concessionária utiliza recursos tecnológicos, inteligência artificial, projeções e análises de estatísticas, que auxiliam no planejamento e na tomada de decisões, com equipes que acompanham o comportamento das redes e as condições de funcionamento dos sistemas de abastecimento e esgotamento sanitário.

Operação que funciona 24 horas por dia

O monitoramento permite observar variáveis como pressão, disponibilidade de água, capacidade de produção e alterações na demanda. No sistema de esgoto, o acompanhamento inclui o funcionamento das estações elevatórias, responsáveis por bombear os efluentes, e o volume encaminhado às estações de tratamento.

Conforme o diretor, a tecnologia também ajuda a identificar os horários de maior consumo e as regiões que exigem atenção especial. Com essas informações, é possível planejar intervenções, dimensionar a operação e antecipar necessidades.

“O objetivo é garantir que a água percorra o caminho entre a captação, o tratamento e a distribuição até chegar às residências. Depois do uso, o esgoto precisa ser coletado e transportado até as unidades responsáveis pelo tratamento, antes de sua destinação final, seguindo as exigências ambientais. Assim, temos estes centros de controle de operação que monitoram em tempo real as redes de água e esgoto. É possível acompanhar a disponibilidade, capacidade de produção e até os picos de consumo“, explica Clayton.

Bezerra também ressalta que outro ponto importante é compreender o funcionamento do saneamento e entender a diferença entre a rede de esgoto e o sistema de drenagem urbana, já que o primeiro recebe os efluentes produzidos nas residências e nos estabelecimentos, enquanto o segundo é responsável por conduzir a água da chuva e, consequentemente, reduzir o risco de alagamentos.

 

“Quando essa separação não é respeitada, podem surgir problemas operacionais. Em locais onde a drenagem é insuficiente, a chuva pode provocar alagamentos. Se a água pluvial entrar indevidamente na rede de esgoto, carregando terra, pedras e lixo, pode provocar obstruções e sobrecarga, favorecendo extravasamentos. Neste momento, inclusive, fica evidente como o saneamento depende tanto da infraestrutura quanto da colaboração dos moradores e do planejamento do poder público”, ponderou o diretor.

Campo Grande tem mais de 95% de cobertura de esgoto

(Guilherme Ramos/Midiamax)

Na capital sul-mato-grossense, os indicadores de atendimento mostram o alcance da infraestrutura existente. Segundo a concessionária, a cobertura do abastecimento de água está universalizada, com índice superior a 99%, enquanto a rede de esgoto atende aproximadamente 95% da população considerada no indicador de cobertura.

O resultado coloca a cidade em uma posição avançada no processo de universalização do saneamento. Orgulhoso deste feito, o diretor fala sobre o Marco Legal do Saneamento, que estabelece 2033 como prazo de referência para o cumprimento das metas de atendimento, incluindo 99% da população com acesso à água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto, observadas as regras aplicáveis.

“A meta apresentada é alcançar 98% de cobertura nas áreas regulares até 2028. A ampliação, porém, depende da regularização de áreas e da atuação do poder público. Em locais com ocupações irregulares ou sem ordenamento urbano adequado, a implantação da infraestrutura exige condições que permitam a execução das obras e a conexão dos imóveis ao sistema. Queremos, ao todo, implantar mais de 600 quilômetros de rede de esgoto até 2028, com aproximadamente 60 mil novas ligações e atendimento estimado a 180 mil pessoas“, estima Bezerra.

Questionado sobre novos loteamentos, o diretor comentou que a concessionária mantém interlocução com incorporadoras e responsáveis por novos empreendimentos imobiliários, buscando compatibilizar a infraestrutura de saneamento com a construção de casas, condomínios e apartamentos.

Estações de tratamento

ETE Botas, localizada no bairro Colúmbia, com capacidade de tratar mais de 600 milhões de litros de esgoto por ano. (Prefeitura de /Reprodução)

Estação beneficia mais de 12 mil moradores dos bairros Nova Lima, Jardim Colúmbia, Vida Nova e Jardim Anache. (Prefeitura de Campo Grande/Reprodução)

Campo Grande conta com três unidades de ETE (Estação de Tratamento de Esgoto): Los Angeles, a maior delas, além da Imbirussu e Botas, sendo esta última inaugurada em 2025, ampliando a cobertura na região norte da cidade.

 

Ao Midiamax, Clayton explicou que a ETE Los Angeles concentra, aproximadamente, 85% do esgoto tratado na cidade, enquanto as demais unidades atendem a outras regiões da Capital.

“O tratamento é uma etapa essencial para reduzir os impactos ambientais do lançamento de efluentes. Após passar pelos processos previstos, o esgoto tratado tem sua destinação submetida às exigências ambientais e aos controles aplicáveis. É por isso que a gente fala que a coleta, o transporte e o tratamento precisam funcionar de maneira integrada, para que o serviço cumpra sua finalidade. É mais uma etapa de um processo que começa muito antes de a água chegar às torneiras e continua depois que ela deixa os imóveis“, finalizou o diretor.

Saneamento também é saúde e dignidade

Para Jhonatan Santos, gestor de Responsabilidade Social da Águas Guariroba, o acesso à água tratada precisa ir além da infraestrutura e considerar a realidade financeira das famílias.

 

“Quando falamos em água tratada, não estamos falando apenas de abrir a torneira e ter água disponível. Estamos falando de saúde, dignidade e qualidade de vida. Por isso, é importante olhar também para as condições das famílias, especialmente aquelas que enfrentam dificuldades financeiras”, argumentou.

Santos finaliza dizendo que, quando unimos infraestrutura e responsabilidade social, não estamos apenas levando água para dentro das casas. Estamos contribuindo para a saúde, a dignidade e melhores oportunidades para a população”, concluiu.

Nesta reportagem especial, você aprendeu sobre:

  • Como funciona o sistema subterrâneo de irrigação que mantém o paisagismo do Relógio de Campo Grande;
  • Qual é a dimensão da infraestrutura de saneamento da Capital;
  • Quais etapas garantem o abastecimento de água, a coleta e o tratamento do esgoto;
  • Como a tecnologia, a inteligência artificial e o monitoramento em tempo real ajudam a controlar os sistemas;
  • Qual é a diferença entre rede de esgoto e drenagem urbana e por que elas não devem ser misturadas;
  • Quais são os desafios para ampliar a cobertura de esgoto em Campo Grande e alcançar novas regiões;
  • Por que a colaboração dos moradores e o planejamento urbano são importantes para evitar problemas na rede e preservar o meio ambiente.

Fonte: Jornal Midiamax